sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Conto do vagão de trem.

Tudo parece igual, o mesmo  balanço, quase as mesmas pessoas, o mesmo horário.O vagão praticamente vazio, os rostos cansados e sonolentos,  alguns ouvindo música através de seus fones, muitos teclando em ritmo acelerado enviando mensagens dos celulares e aguardando ansiosamente as respostas. As pessoas não percebem umas as outras, o ritmo da vida é frenético e impede o olhar ao outro.
Senta-se a minha frente um senhor de mais ou menos uns setenta anos, chapéu na cabeça, óculos pequeno já bem antigo, calça e camisa já bem surrados, desgastados pelo tempo, carrega consigo uma mochila , penso comigo, "deve carregar sua vida lá dentro", meu pensamento é certeiro...Com  delicadeza e cuidado abre a mochila, como estivesse abrindo um baú recheado de ouro. Percebo que há várias sacolinhas plásticas com coisas dentro, isso me despertou grande curiosidade, abriu uma retirou de dentro um livro pequeno já gasto e com folhas amareladas pelo tempo::"Evangelho segundo São João, percebi que haviam vários papeis por entre as folhas, ele cuidadosamente desdobrava,lia ,  dobrava novamente e com o mesmo cuidado colocava na mesma pagina onde retirara, um volume maior entre outras paginas , percebi então que eram fotos,  ele retirou as fotos e começou a admira-las uma a uma, eram fotos, mas havia cartões postais,  as fotos aparentemente eram de um rapaz jovem com roupas do  exército, nesse momento ele fixou o olhar por alguns minutos, foi quando eu vi que uma lágrima escorreu no canto do olho direito, puxou um lenço do bolso, retirou os óculos e secou a lagrima, em um gesto calmo, com paciência guardou as fotos na mesma página com um cuidado como isso fosse o seu bem mais precioso. Certamente era alguém muito por ele amado.
Não me coube nenhuma pergunta, mesmo porque ele nem percebeu o meu olhar naquela cena, ele estava demaseadamente envolvido em seu mundo para reparar que estava sendo observado.

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