quarta-feira, 29 de maio de 2013

A carta.

Outro dia me surpreendi ao ler  no facebook o post do Professor Claudemir, anunciando cheio de inspiração que amanheceu o dia disposto a escrever cartas, e quem desejasse recebe-las que enviassem a ele o CEP, e entrei na brincadeira enviando o meu. Só depois comecei a refletir, e percebi que o mundo tinha perdido essa delicadeza. As correspondências que recebo são somente boletos... e qual seria  então minha reação ao receber uma correspondência  escrita somente para mim, sem mala direta, só minha... uma carta?
Inclusive, comentei que a últma carta que recebi foi em 22 de dezembro de 1984, e mantenho ela guardada com o selo e envelope bonito via áerea. Talvez, tenha esquecido a importância que estas coisas simples faziam para mim. 
A tecnologia foi tomando um espaço emorme em nossas vidas, e essa imediatez, muitas vezes insensata e mal respondida, invadiu o cotidiano e nos fez esquecer que precisamos de mais detalhes.
Hoje, aguardo ansiosamente a minha carta, não importa o conteúdo, como o próprio professor disse, são algumas bobeiras, mas eu sei que foi escrita para mim. 
Seria bom que praticassemos mais isso, escrever para um amigo para saber como ele está, como vai a vida, contar um pouco da nossa vida. Imagine a alegria de quem recebe, principalmente  se é alguem como eu que só encontra em sua caixa de correspondência boletos para pagar.

CARTA


Bem quisera escrevê-la
com palavras sabidas,
as mesmas, triviais,
embora estremecessem
a um toque de paixão.
Perfurando os obscuros
canais de argila e sombra,
ela iria contando
que vou bem, e amo sempre
e amo cada vez mais
a essa minha maneira
torcida e reticente,
e espero uma resposta,
mas que não tarde; e peço
um objeto minúsculo
só para dar prazer
a quem pode ofertá-lo;
diria ela do tempo
que faz do nosso lado
as chuvas já secaram,
as crianças estudam,
uma última invenção
(inda não é perfeita)
faz ler nos corações,
mas todos esperamos
rever-nos bem depressa.
Muito depressa, não.
Vai-se tornando tempo
estranhamente longo
à medida que encurta.
O que ontem disparava,
desbordado alazão,
hoje se paralisa
em esfinge de mármore,
e até o sono, o sono
que era grato e era absurdo
é um dormir acordado
numa planície grave.
Rápido é o sonho, apenas,
que se vai, de mandar
notícias amorosas
quando não há amor
a dar ou receber;
quando só há lembrança
ainda menos, pó,
menos ainda, nada,
nada de nada em tudo,
em mim mais do que em tudo,
e não vale acordar
quem acaso repousa
na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta.
Carlos Drummond de Andrade
Antologia Poética
Rio de Janeiro / São Paulo, Editora Record, 1999

terça-feira, 14 de maio de 2013

O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado. Albert Einstein

A ditadura militar foi um período em que os militares governaram o Brasil, essa época vai de 1964 a 1985, as principais caracteristicas do regime da ditadura militar era: suspenssão dos direitos constitucionais, CENSURA, perseguição política, e repressão aos que eram contra ao regime.
Eu vivi essa época horrível que mancha a história deste país, entre a infância e adolescencia, lembro-me com clareza o aviso que a programação havia sido liberada pela censura, não entendia direito o que era aquilo.
Com o passar dos anos fui tomando noção de todo processo, e criando consciência que aquilo não era normal, que as pessoas não podiam sujeitar-se a essas atrocidades, mesmo não sabendo dos detalhes sórdidos das operações que envolviam os que eram contra o regime, porque essas coisas não eram noticiadas. O que era bem frizado por todos é que não podia manifestar-se contra.
Somente senti o que era isso na pele em meados de 1980, quando em uma greve de professores com apoio dos alunos em uma manifestação pacífica,demos de cara com o DOPS (departamento de ordem política e social), a cavalaria que não deu trégua, muitos fugiram, outros foram pegos e a borrachada correu solta.
E neste período o país já passava por um processo de democratização com um presidente militar mais suave o então João Batista Figueiredo, que adorava cavalos, talvez por isto, a polícia era montada. Ficava imaginando o que seria quando os presidentes eram mais duros, e um dia descobri...
Em 1984, a democratização tomou força com o movimento DIRETAS JÁ!, enraizava-se aí o movimento dos trabalhadores, estudantes, intelectuais, artistas. A partir daí a sociedade sentiu que era forte o bastante para negociar o final da ditadura. Lembro-me da Praça  da Sé com milhares de pessoas pedindo a democracia, foi lindo fazer parte disto.
Em 1985, foi eleito por um colégio eleitoral  um presidente não Militar, Tancredo Neves, que nem chegou a tomar posse "morreu" de diverticulite assim dizia os boletins médicos, então foi empossado seu vice José Sarney. E o resto da história vocês já conhecem.
Mas, essa história toda é para ilustrar o que é ditadura e o que é democracia, e levantar certos questionamentos se ela existe realmente em nossas vidas a tal da democracia. Tenho presenciado vários episódios que me fazem voltar lá nos anos 70, e confesso que tenho medo, tenho percebido novos militares infiltrados de forma sutil e sem farda, que acham que estão acima do bem e do mal, e não é de política que falo, é de opressão a vida e a expressão. 
Será que este é um país democrático? não posso dizer com certeza.
Um país que não ouve seu povo, que não educa seu povo, que limita sua expressão, forma alguns tiranos que fazem parte de uma minoria, que acredita que oprimir e tripudiar o faz forte. Todavia, já foi percebido que uma maioria unida, quando sente-se ameçada pode provocar mudanças.
Um caso para se pensar...