quinta-feira, 21 de novembro de 2013

“É que Narciso acha feio o que não é espelho” ―Caetano Veloso

O dia foi hoje. Como sempre, sigo o meu percurso rotineiro, uma boa caminhada, depois embarco no trem rumo a São Caetano. 
Como estou sem fone de ouvido, nada resta mais a fazer que observar, vejo muitos rostos e em cada um algo que encanta. Nesta observação passo a conhecer um pouco de alguns desconhecidos, a preferência de leitura, a maquiagem da menina feita com esmero  no trem , os problemas familiares discutidos nada discretos  pelo celular, até uma bandeja de sushi como almoço rápido no colo da moça e muita gente cansada tirando um cochilo até a estação de desembarque, é impressionante como sente a hora que tem que descer, e acorda rapidinho  . No trem se vê de tudo, jovem, idoso, criança, cada um único. É um bom exercício para quem quer ver além.
Desembarquei, fui até o terminal para "pegar" o onibus. Entrei, nada de lugar para sentar, observei logo que atravessei a catraca, uma moça , mas o que me chamou atenção foram as tatuagens. Pensei:
nossa que exagero, será que precisa de tanto, além das tatuagens tinha piercing no nariz. Mas na realidade nem olhei os desenhos só achei que havia muita  informação. Mas, quem disse que isso era da minha conta?
Nesse tempo de espera até a saída do onibus, fiquei tentando desviar o olhar. Percebi então, que todos olharão para frente. Eu segui os olhares e vi a mulher que entrou, com o rosto muito ferido, cheio de hematomas, com cortes suturados com vários pontos, marcas nos braços, aquilo era visível que não era acidente, aquilo era resultado de violência. Todos olhavam aquilo com ar de piedade, a mulher aparentava sentir-se envergonhada. Aquilo sim era feio de ver. 
Então coloquei-me a observar com atenção desenhos no corpo da moça, vi gaivotas de pequenas a maiores  estampadas no colo, uma rosa e uma estrela nos braços, um palhaço sorridente em uma  perna, um pierrot na outra, nos dedos flores, um nome de mulher no pulso (que poderia ser o da mãe,ou namorada)
E acabei por mudar meu pensar, e achar diante do que vi que aquilo tudo era até estiloso. Percebi o contraste, as marcas do corpo da moça ela escolheu, o da outra mulher alguém provocou. 
Por fim, as duas desembarcarão e seguiram o rumo quase lado a lado, e eu continuei a observar de longe...tentando me entender...
Caetano pode explicar: "Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos Mutantes"


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